1855Club Setubalense
A ÉPOCA DA FUNDAÇÃO DO CLUB SETUBALENSE
 
João de Sá Nogueira
Presidente da Mesa da Assembleia Geral
do Club Setubalense
 
1.      Um olhar sobre a Cidade
 
Nesta sessão, integrada na série de eventos comemorativos do centésimo quinquagésimo aniversário do Club Setubalense, iremos procurar conhecer melhor a história e a cultura de Setúbal, mediante um olhar sobre como e porquê surgiram, e depois  evoluíram, três instituições tão ligadas à Cidade e à Região: o jornal O Setubalense, fundado em 1855, o Movimento Rotário Internacional, surgido em 1905, e que este ano celebra os 61 anos da sua implantação em Setúbal, para além do nosso clube, o Club Setubalense, instituído naquele ano de 1855.
 
Três instituições que, embora com objectivos e actuações diferentes, tiveram na sua origem e mantiveram na sua prática, até hoje, uma missão comum: contribuir para melhorar as condições de vida na comunidade, mediante a intervenção na defesa do bem estar público, cultural e social da sociedade setubalense.
 
Permitam-me, pois, que saúde as entidades que hoje quiseram associar-se às nossas comemorações – o jornal O Setubalense e o Rotary Club de Setúbal, nas pessoas do Dr. João Carlos Fidalgo e do Arqto. Frederico Nascimento – e homenageie aqueles que, na fundação destas instituições, souberam sonhar estes projectos e, todos, que ao longo dos anos, souberam concretizar os seus sonhos.
 
E tudo começou em 1855...
 
 
 
 
2.      1855 na Europa
 
1855!
 
A Europa revolve-se no vasto movimento de 1848, simultaneamente uma revolução das nacionalidades e um episódio da luta de classes. Termina o reinado da “Santa Aliança” (“essa aliança dos reis contra os povos”, segundo a definição de Eça) e de Metternich, o seu inspirador.
 
As nacionalidades nos impérios austríaco, otomano e do czar batem-se pela autonomia.
 
Na Alemanha, as massas doutrinadas pelo liberalismo procuram sacudir a estrutura feudal – que impede a ascensão da pequena burguesia – e romper as barreiras que separam os vários estados e asfixiam as comunicações comerciais dentro do País. Em Frankfurt reúne-se o primeiro parlamento unitário alemão.
 
Em França, a pequena burguesia, o artesanato e o proletariado rebelam-se contra o regime de Carlos X e o governo de Guizot. Sobre as ruínas da República Francesa dividida aparece Luís Napoleão. Estamos no limiar do segundo império.
 
 
3.      1855 EM PORTUGAL
 
1855!
 
Em Portugal são dados os primeiros passos na estabilização e na procura da recuperação e da expansão.
A metade inicial do século – após uma primeira fase, compreendida entre 1800 e 1808, de continuação dos níveis positivos resultantes do dirigismo pombalino – é caracterizada por uma fase de grande depressão, com a separação económica do Brasil, as invasões francesas, o domínio comercial inglês, a guerra civil entre o Absolutismo e o Liberalismo e a agitação política nos anos que se seguiram ao triunfo liberal.
 
Não há estabilidade. É a luta entre a esquerda e a direita. Morre D. Pedro IV. Sobe ao trono D. Maria II. Palmela, Terceira e Saldanha controlam os sucessivos governos de pendor conservador. Passos Manuel aparece a liderar a oposição. Dissolução do Parlamento em Junho de 36. Novas eleições ganhas pela oposição. A revolta de Setembro (o Setembrismo). Passos Manuel pugna pela abolição da Carta e repõe em vigor a Constituição de 22. É elaborada nova Constituição, mais avançada que a Carta, mas muito mais moderada que a de 22. Evolução do Setembrismo, para uma posição mais moderada, personificada por Sá da Bandeira, que prevalece sobre Passos Manuel.
 
Uma evolução, cada vez menos radical, até 1842, num país mais estável, debalde os sobressaltos da Belenzada (1836) e da Revolta dos Marechais (37). É o aparecimento de uma nova figura, a do Ministro da Justiça Costa Cabral. Toma conta do Governo em 42. Proclama a restauração da Carta. Formação de um novo Governo presidido por Duque da Terceira, embora Costa Cabral, como Ministro do Reino, seja o verdadeiro dirigente. Um Governo mais à direita. A subida do Cabralismo: mais autoritarismo, aumento das contribuições, proibição dos enterros nas igrejas. Estala em 46, a revolta rural do Minho, a Maria da Fonte. A sua evolução, numa 2ª fase – a Patuleia – constituindo uma verdadeira organização popular revolucionária, congrega antigos absolutistas com radicais de esquerda, moderados com alguns centristas da direita, generais, aristocratas, clérigos, burgueses, proletários e trabalhadores rurais. Estala nova guerra civil (estamos em 1847) com a duração de 8 meses, que se alastra do Norte até ao Algarve.
 
A Convenção de Gramido, o regresso dos Cabrais. Saldanha, magoado, torna-se chefe da oposição. Lidera nova revolta; em 1851, no Porto, surge a Regeneração. Saldanha volta ao poder. O Acto Adicional de 1852 põe termo à separação entre cartistas e setembristas.
 
É o advento de um período de acalmia, em que regeneradores e históricos (mais tarde conhecidos por progressistas) alternam no poder.
 
É a expansão industrial, financeira e mercantil do país. É a harmonização dos interesses dos industriais, dos banqueiros, dos comerciantes e dos proprietários rurais. É a unificação da alta, média e baixa burguesia. É, na realidade, a adaptação final do País às novas condições nascidas da perda dos Brasis e do ruir do antigo regime. Morre D. Maria II. É a regência de D. Fernando. É a subida ao trono, em 1855, de D. Pedro V.
 
 
4.      A REGENERAÇÃO
 
1855!
 
Estamos em plena Regeneração, a regeneração do País, dos seus hábitos, da sua economia, da sua cultura, da sua praxis política, do seu ensino. Finalmente o País tem estabilidade para procurar a sua recuperação, que será marcada por uma intensa actividade do sector privado e pela intervenção do Estado nas grandes prioridades.
 
- É a concentração da acção estatal na realização do programa das vias de comunicação. É o comboio, são as estradas e aparece o telégrafo. É a subida de Fontes Pereira de Melo e do Fontismo.
 
- É a concentração da acção privada no comércio, tornada possível pelas vias de comunicação.
 
- É a preponderância dos produtos agrícolas no comércio e o aumento de produção dos campos, com vista à sua comercialização.
 
- É o aumento da classe média com base no comércio do produto agrícola.
 
- É o aumento do consumo e do nível de vida das classes médias e o correlativo aumento da importação dos produtos industriais.
 
- É, em contrapartida, a estagnação ou o crescimento lento da indústria, apagada pelo recurso à importação, pela falta de qualidade e carência de tecnologia.
 
- É a riqueza do comércio, conduzindo à capitalização imobiliária.
 
- É a emigração dos camponeses (a redescoberta do Brasil) nova fonte de rendimentos, provenientes das remessas dos emigrantes.
 
- É o nascimento das primeiras “praias de banhos” e o aparecimento dos hotéis das termas.
 
- É o aparecimento de novos hábitos:
·        O algodão estrangeiro substitui o bragal de linho.
·        O candeeiro de petróleo toma o lugar da candeia de azeite.
·        A estearina importada desterra a cera indígena.
 
- É a entrada na língua portuguesa de uma enxurrada de estrangeirismos:
·        Avenida, hotel, club, restaurante, toilete.
·        Mamã, papá, bebé
·        Gare, rail, vagão, paquete, doca.
·        Creme, puré, omolete, bife, pudim.
·        Chique, blusa, croché, carpete.
 
- É a abertura do ensino liceal e universitário aos filhos da nova burguesia, com origem na acessibilidade propiciada pelos comboios e pelas estradas. É, finalmente, a concretização prática das reformas enunciadas já em 1823 (Luís Mouzinho de Albuquerque) prevendo a criação de liceus – canais para a universidade – ao lado das escolas secundárias – canais para o emprego – e da de 1836 (Passos Manuel) criando um liceu em cada província. Os liceus passam a ter afluência, há alunos, há professores, é restabelecido o ensino da matemática. São criadas as Escolas Médicas de Lisboa e do Porto, o Curso Superior de Letras de Lisboa e a Escola Politécnica.
 
- É a introdução em Portugal da nova literatura, comparável – pelas suas consequências radicais e pela sua quebra de continuidade com o passado – à revolução política de 1832/34. É a publicação, em 1836, de “A Voz do Profeta” de Herculano, segundo modelo das “Paroles d’un Croyant” de Lamennais; é o aparecimento das primeiras traduções de Walter Scott e a sua influência  em  “Os Ciúmes do Bardo” e “A Noite do Castelo” de António Feliciano Castilho, denunciando o triunfo entre nós do novo gosto literário – o romantismo.
 
- É o aparecimento, nesta linha, do romance e drama históricos, tão notavelmente cultivados por Herculano. Publica-se o “Alfageme de Santarém”, “Um Auto de Gil Vicente”, “Eurico”, a maior parte das “Lendas e Narrativas”, “O Monge de Cister”, o “Frei Luís de Sousa”, etc.
 
- É a fase brilhante do jornalismo, dando aos grandes escritores (Garrett, Herculano incluídos) a ocasião de comunicar com muitos leitores. Homens como Rodrigues Sampaio e José Estêvão encontram larga receptividade no público, em geral.
 
- É o resultado imediato da Carta-de-Lei de 1851, revogando a denominada “Lei da Rolha” de Agosto de 1850.
 
-  É o ponto alto de um dos períodos mais longos da História de Portugal (1821 a 1907) em que a liberdade de expressão foi fielmente respeitada, mau grado a instabilidade governativa. Instabilidade a que se ficaram a dever as poucas excepções em que a liberdade foi coarctada pela reposição da censura:
·      1823 a 1826: Vilafrancada, Abrilada e chegada de D. Miguel,
·      1828 a 1833: Proclamação de D. Miguel como rei.
 
   ou suspensas as garantias e proibida a publicação de periódicos:
·      45 dias em 1840 – Rebelião de Lisboa;
·      De Abril de 1846 a Julho de 47 – Maria da Fonte, Patuleia;
e, ainda, em breves períodos subsequentes, para fazer face a uma instabilidade política exacerbada.
Os governos liberais empenham-se em efectivar a liberdade da palavra e da imprensa e em estimular a livre discussão a todos os níveis e sobre todos os assuntos. Multiplica-se o número de publicações. A liberdade de imprensa e de expressão é reconhecida como “o apoio mais seguro do Sistema Constitucional” e tem um papel fundamental quer na formação cívica dos eleitores – frequentemente chamados às urnas – quer como vigilante dos negócios públicos e fomentadora da alternativa de poder. E como afirma Oliveira Marques, “a liberdade de palavra e de reunião levou, por sua vez, à vaga da conferência e dos clubes culturais de todo o género”.
 
- É neste contexto cultural, conjugado com o aparecimento de novas elites sociais e com o próprio incentivo do governo, que faz ressurgir o espírito associativo, formando-se novas sociedades de carácter político, literário, desportivo, recreativo, artístico, etc.
São os novos clubes, as assembleias, os centros, os grémios, as sociedades, as associações.
 
É a Assembleia Portuense (1834), as Associações Comerciais de Lisboa e do Porto (1834), a Assembleia Philarmónica de Lisboa (1840), o Grémio Literário de Lisboa (1846); é a Sociedade Arqueológica Lusitana, fundada em Setúbal em 1849 para promover as escavações nas ruínas da antiga Cetóbriga. São outros exemplos posteriores, como o Grémio Popular, em Lisboa (1857), a Associação Central da Agricultura (1860), a Associação Industrial Portuguesa (1860), a Sociedade Histórica da Independência Nacional (1861), a Sociedade de Geografia (1875), a Voz do Operário (1883), etc., etc...


 
5.      1855 EM SETÚBAL
 
1855!
 
E Setúbal não era tocada por todo este movimento regenerador?
A estabilidade também aqui fazia sentir os seus frutos, depois da Cidade também ter estado envolvida na Guerra Civil e de ter tido um papel preponderante na marcha liberal sobre Lisboa, em 1833, que, conjuntamente com Almoster e Asseiceira levaria à assinatura da Convenção de Évora-Monte em Maio de 1834.
 
Setúbal também progredia:
 
- A partir de 1848 faz-se a terraplanagem que dará origem à Avenida Luísa Todi. Arborizam-se as ruas, melhora-se o porto, abrem-se estradas, estabelece-se o telégrafo, ergue-se o farol, uma linha de vapores liga Setúbal a Lisboa e em 1861 estende-se o caminho-de-ferro do Pinhal Novo a Setúbal.
 
- Em 1854 Setúbal celebra o dogma da Imaculada Conceição de Maria.
 
- E, concretamente em 1855, fundam-se diversas associações profissionais, de mutualidade e cooperativas, sendo de destacar a Associação Setubalense das Classes Laboriosas.
 
·      Surge a primeira publicação de “O Setubalense”, uma folha semanal, noticiosa e política.
 
·      Reabre o Teatro Bocage, com um novo pano de boca, pintado por Francisco Augusto Flamenco; com camarotes de 1ª e 2ª ordem e três plateias, tinha uma lotação para 364 espectadores.
 
·      John Rennie é indigitado para estudar as obras de que necessitava o porto de Setúbal.
 
 
·      Sob a gestão camarária de Agostinho Rodrigues Albino, é ligada a antiga Rua da Conceição (hoje Avenida 5 de Outubro) com o Largo do Matadouro.
 
·      Os produtos mais afamados da região estão presentes na Exposição Internacional de Paris:
 
Ø O vinho Moscatel, produzido por José Maria da Fonseca, é premiado com a Medalha de 1ª classe.
 
Ø As conservas de peixe em azeite, de Feliciano António da Rocha, com uma Menção Honrosa.
 
·      É fundado o Club Setubalense!
 
É a resposta de Setúbal à necessidade de criação de um espaço onde se estimulasse a livre discussão das novas ideias políticas e das novas correntes culturais e se promovesse o convívio da nova burguesia citadina. Como dizia o artigo 1º dos seus Estatutos eram seus fins “dar incremento à civilização por meio da convivência, da leitura e das reuniões familiares e, ainda, por qualquer outro conducente ao mesmo fim”.


 
6.      150 anos do club setubalense
 
Ao longo destes 150 anos, com altos e baixos, como aliás toda a nossa história, o Club Setubalense – hoje a agremiação mais antiga da cidade – tem tido uma obra notável em prol de Setúbal e da sua região. Valeu a pena o esforço dos
seus fundadores!
 
Para eles as nossas homenagens, extensível a todos aqueles que ao longo dos anos aqui desenvolveram a sua acção, de modo a consolidar e a prestigiar esta respeitável Casa.
 
Graças a eles podemos – e devemos – hoje repensar este Clube e encontrar o seu papel, em pleno século XXI.
 
De novo, “dar incremento à civilização” será, com certeza, a sua missão fundamental.
 
“Dar incremento à civilização”, será fomentar a convivência e a livre troca de ideias, local privilegiado de encontro de personalidades de formação política diferente, na procura de uma convergência de acções conducentes ao bem-estar da comunidade em que nos inserimos; proporcionando tempos de reflexão, sabendo ouvir e comunicar, fomentando a criação de sentimentos de entreajuda, partilhando objectivos comuns, cultivando a tolerância.
 
“Dar incremento à civilização” será satisfazer os anseios culturais dos seus sócios, em particular, e da população de Setúbal, em geral, promovendo as actividades tendentes à divulgação e ao aprofundamento do conhecimento e da cultura, fundamento para a construção do futuro, numa busca constante do que queremos ser e como o poderemos alcançar.
 
 
 
 
“Dar incremento à civilização” será promover actividades tendentes à congregação das famílias, motivando as camadas mais jovens para organizações e ocupações no Clube, quer envolvendo em conjunto as várias gerações, quer, com espírito de inovação, mediante acções dirigidas especificamente para a juventude.
 
“Dar incremento à civilização” será ter uma palavra activa na organização da ocupação dos tempos de lazer nesta cidade, ajudando na fixação dos quadros superiores de Empresas instaladas ou a instalar na Região.
 
“Dar incremento à civilização” será, enfim e numa perspectiva actual, promover a cidadania através de um projecto de intervenção social e cultural, mobilizador de meios e vontades, capaz de contribuir para ajudar a encontrar as melhores soluções para a vida da Cidade e da Região.
 
Mas também se espera, que, com a colaboração activa dos Associados, saibamos descobrir novos caminhos para o nosso próprio Club Setubalense.
Para eles apelamos, para que, antes de tudo, “vivam” a “vida” do Clube e, em tempo oportuno - no decorrer deste ano que é de comemoração, mas também desejamos, que seja de reflexão - apresentem sugestões para a sua organização e actividades, discutam e encontrem soluções para como hoje, aqui em Setúbal, poderá o Club Setubalense, de forma renovada e de acordo com os interesses dos seus Associados, continuar a “dar incremento à civilização”.
 
As alterações dos gostos e dos hábitos quotidianos, a aceleração do tempo, as mudanças de vida, exigem novas formas de relação, baseadas hoje, como no passado, na defesa dos valores da tolerância, do pluralismo e da convivência, que o Club Setubalense, desde sempre, assumiu como seus e que se traduzem na abertura ao espírito e à cultura, numa arte de viver e de conviver, numa elegância moral que o nosso tempo precisa de cultivar.
 
 
 
 
Abrindo as suas portas à juventude, às novas correntes das artes e da cultura e aos movimentos da sociedade, saibamos, com confiança e sentido de renovação, criar condições para a  realização integral dos nossos associados, fomentando uma prática de uma cidadania actuante e dinamizadora da vida cultural e social da nossa Cidade, capaz de inventar novas respostas para as interrogações e os desafios de cada tempo.
 
.Desta forma, ao darmos incremento à civilização, estaremos a ajudar a construir Setúbal!

Voltar