Club Setubalense   [05-14 19h] Sábado 14  Maio 2011 -18h

Recital de música de câmara (violino e piano) para o dia 14 de Maio pelas 18h30m horas.O programa apresenta obras dos seguintes compositores: Mozart, Brahms e Franck

Tamila Kharambura - violino
Inês Andrade - piano

Sábado18h30m

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

__            _____W. A. Mozart -

Sonata para violino e piano em l á maior Kv 305
I - Allegro di molto
______________J. Brahms -

Sonata para violino e piano em ré menor Op. 108
I - Allegro
______________C. Franck -

Sonata para violino e piano em lá maior
I - Allegretto ben moderato
II - Allegro
III - Recitativo - Fantasia
IV - Allegretto poco mosso
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Tamila Kharambura - violino
Inês Andrade - piano

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Música para Violino e Piano

A literatura musical para a formação de câmara violino/piano começa
a aparecer paralelamente aos desenvolvimentos organológicos deste último
instrumento. A “invenção” de Bartolomeo Cristofori irá sofrer desenvolvimentos
técnicos ao longo da segunda metade do século XVIII e inícios do século XIX
transformando-se no instrumento que conhecemos hoje, na segunda metade do
século XIX. O violino ocupa já, desde o século XVII, um lugar de destaque como
instrumento nobre. É em torno da sua família que se irá constituir gradualmente
a orquestra sinfónica e é principalmente para ele que se irão escrever concertos e
sonatas.
É neste contexto de inovação (com Mozart) e de plenitude das capacidades de
ambos os instrumentos (com Brahms e Franck) que se insere o seguinte programa.
Este tem como denominador comum a forma-sonata. Esta é talvez a forma mais
importante utilizada na música de câmara, produto de um racionalismo musical
setecentista. A sua forma proporcional - exposição-desenvolvimento-reexposição -
pode ser observada em Mozart com uma claridade impressionante. Ao longo de todo
o século XIX esta forma é praticamente diluída em algo que a torna praticamente
irreconhecível (e.g Sonata em Si menor de F. Liszt), apesar de em compositores como
Brahms e Franck essa clarividência ainda se manter.
Wolfgang Amadeus Mozart nasceu em Salzburgo, a 27 de Janeiro de 1756 e
morreu em Viena, a 5 de Dezembro de 1591. O seu estilo representa uma síntese
de vários elementos diferentes unindo-se, durante o período vienense (a partir de
1781), num idioma tido actualmente como o pico máximo do Classicismo vienense. A
maturidade musical, nítida pela sua beleza melódica, a elegância formal e a riqueza
harmónica e textura resulta num colorido operático italiano enraizado na tradição
instrumental austríaca e alemã. Não será, pois, exagero considerá-lo como um dos
mais universais compositores da história da música Ocidental.
A Sonata para Violino e Piano em Lá maior K 305 é a penúltima sonata de um
grupo de seis sonatas (K 301-6) editadas em Paris no final de 1778 como “Opus 1”
sendo dedicadas à Eleitora Palatina Isabel Augusta. Apesar de publicada em Paris, esta
sonata pertence a um grupo de sonatas escritas aquando da estadia de Mozart em
Mannheim e terá sido escrita durante o verão de 1778. Alfred Einstein (biógrafo de
Mozart) descreve-a como “um dueto social, idilicamente imperturbável, cheia de boa
disposição, frescura e inocência”, uma opinião difícil de contradizer.
Como as sonatas precedentes do Opus 1 esta sonata é composta por dois
andamentos (sendo só o primeiro apresentado neste programa): um Allegro di molto
seguido de um tema e variações com indicação de Andante grazioso. Comummente
às outras sonatas do mesmo período para esta formação, Mozart parece insistir
num equilíbrio entre violino e piano (note-se que estas sonatas são para piano com

acompanhamento de violino) combatendo assim a crescente hegemonia deste último.
O primeiro andamento abre com o tema principal, numa métrica de 6/8, apresentado
em uníssono pelos dois instrumentos. Esta primeira parte sugere um ambiente
bucólico e pastoral, típico das cenas de caça, que inesperadamente demora mais que
o previsto. Momentos cadenciais e pedais consecutivos, de alguma agitação conduzem
ao desenvolvimento, dominado pelo modo menor, regressando à ordem inicial com a
reexposição do tema principal.
Contrastando com esta “leveza” mozartiana setecentista aparecem as duas
obras que concluem o programa, ambas da segunda metade do século XIX. A primeira
pertence a Johannes Brahms, que nasce em Hamburgo a 7 de Maio de 1833 e morre
em Viena a 3 de Abril de 1897. Sucessor de Beethoven e Schubert no que respeita
às grandes formas orquestrais (sinfonia, concerto) e de câmara (quarteto, sonata);
de Schubert e Schumann no que respeita às formas-miniatura para piano assim
como à música para canto e piano; e à tradição polifónica renascentista e barroca no
respeitante à música coral. Brahms sintetizou criativamente as práticas de três séculos
juntando-lhes idiomas folclóricos e de dança com a linguagem musical característica do
Romantismo tardio. A sua obra apesar de muito discutida (tida como reaccionária por
uns, progressiva por outros), é bem aceite durante a sua vida.
Das três sonatas para violino, a Sonata para Violino N.º 3 em Ré menor Op. 108
(da qual só é apresentado o primeiro andamento) destaca-se das outras duas pela sua
tonalidade menor, mais dramática assim como pela sua amplitude sinfónica que lhe
confere os quatros andamentos, contrariamente aos habituais três. Esta foi escrita
entre 1886 e 1888 no seguimento da Segunda Sonata, com o intuito de criar uma obra
em dois andamentos. O facto de ter demorado dois anos a terminá-la prende-se com
a escrita do concerto para violino e violoncelo, tendo este interregno proporcionado
a emancipação da sonata do projecto inicial de uma obra em dois andamentos.
Aquando da sua estreia pelo violinista Jenó Hubay e o próprio Brahms ao piano, a
22 de Dezembro de 1888, um crítico afirmou reconhecer nas explosões ardentes e
impetuosas do texto musical o retrato do dedicatário, o chefe de orquestra Hans von
Bülow.
Logo no primeiro andamento (Allegro), um primeiro tema em ré menor,
apresentado pelo violino em sotto voce ma espressivo, explode num súbito forte logo
nos compassos seguintes numa nova apresentação veemente e intempestiva, cedendo
o lugar ao segundo tema, no relativo maior, apresentado primeiramente pelo piano
e consequentemente pelo violino como todo o esplendor. Um desenvolvimento algo
inesperado, em oscilações e arpejos flutuantes sobre um pedal de dominante instalam
um clima de sonho de onde emerge o primeiro tema que anuncia a reexposição, que
irá contrastar com a exposição.
A segunda sonata pertence a César Franck. Franck nasceu em Liège, a 10
de Dezembro de 1822 e morreu em Paris, a 8 de Novembro de 1890. Apesar de ter
nascido na Bélgica a sua actividade centra-se em França, tornando-se numa das

figuras de proa da música francesa da segunda metade do século XIX influenciando
praticamente todos os compositores franceses das gerações posteriores.
A Sonata para Violino e Piano em Lá maior foi escrita em 1886, sendo dedicada
ao violinista Eugene Ysaÿe. Ysaÿe irá estreá-la a 16 de Dezembro do mesmo ano em
Bruxelas. O primeiro andamento (Allegretto ben moderato) transporta-nos para
um ambiente de sonho, de poesia e mistério. O piano propõe uma introdução à
qual o violino responde calorosamente. Numa fase inicial simples, quase aérea, a
melodia torna-se cada vez mais densa à medida que é repetida. O segundo tema,
particularmente expressivo é dedicado ao piano. Um turbilhão de arpejos sustem o
calor romântico do desenvolvimento até o violino irromper novamente com material
temático do primeiro tema, desta feita com sobriedade e subtileza.
O piano abre um segundo andamento (Allegro) tumultuoso e profundamente
rapsódico. O violino desliza sonoramente, resistindo aos acordes quebrados do
piano. Este tumulto acalma quando está prestes a entrar o primeiro tema desta feita
de forma menos dramática, dissolvendo-se numa falsa expectativa até encontrar o
turbilhão sonoro final.
O andamento lento (Recitativo – Fantasia), quase improvisado, é marcado
por uma beleza dolorosa. Dividindo-se entre um ambiente de sonho e realidade, um
diálogo entre dois seres numa nostalgia cada vez mais presente. Este andamento é
praticamente dedicado ao violino (o próprio título o sugere), explorando a beleza
tímbrica e melódica do instrumento. É ele que pontua o discurso musical com trilos,
arabescos, frases suspensas, sempre rodeados pela presença do piano.
O quarto e último andamento (Allegretto poco mosso) é uma afirmação da
confiança na vida, através de um motivo inicial com um carácter luminoso com algum
fervor contido. Seguidamente, o mesmo tema é apresentado num gesto fugado,
repetido quatro vezes, assumindo mais uma vez o piano o papel de guia. O violino
repete a mesma melodia algum tempo mais tarde. Entre as passagens, o motivo inicial
é repetido de uma forma insistente, sobrepondo-se gradualmente o violino ao piano
até ao final.


Concerto Club Setubalense, 14 de Maio de 2011
Luís C. F. Henriques

 

 

 

 

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